A realidade nunca foi suficiente. Também foi sempre excesso. E a arte, no equilíbrio, numa esquizofrenia trapezista, talvez sugerindo a queda, a vertigem ou a límpida alienação do perigo, mas sempre como derradeira tentativa de ampliação e diminuição simultânea da realidade. Criamo-la para compreendê-la. Porém, que há a compreender? Na ânsia de descobertas, deslumbrar-nos-emos com a mínima insinuação de arte? Estaremos por demais ávidos de expressão, de compreensão? Porventura de dúvida? Não de uma singular dúvida, mas da dúvida totalizante do ser? Elos de perguntas que nos levam à transcendência ou à bugiganga.
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O corpo-obra é o vestígio caído da mais extrema das transgressões: a da renúncia a Deus e ao Homem, pólos de infindo conhecimento e ignorância. É o único reduto entre dois dedos indicadores surgidos de dois mundos infinitamente distintos. É a inscrição da dúvida, da solidão, da esperança. Pois na névoa de se estar vivo, são os brilhos comunicantes que se unem a tantos outros irrigando o vazio de fora, a desolação de dentro. Aceitemos este fim de nós no eterno de mais nada. Aceitemos que este lugar é irrevogavelmente nosso. Um lugar tão desolado e formidável, tão terrível, tão belo. Um lugar onde para sempre coincide a palavra e a ininteligibilidade do mundo.