Xavier Villaurrutia · Nocturno

De Nostalgia de la muerte · tradução de Luís Fausto

O poema foi publicado inicialmente em Nocturnos (1931) e posteriormente integrado em Nostalgia de la muerte (1938).

Tradução

Nocturno

Tudo o que a noite
desenha com a sua mão
de sombra:
o prazer que revela,
o vício que desnuda.

Tudo o que a sombra
faz ouvir com o duro
golpe do seu silêncio:
as vozes imprevistas
que a intervalos acende,
o grito do sangue,
o rumor de uns passos
perdidos.

Tudo o que o silêncio
faz fugir das coisas:
o bafo do desejo,
o suor da terra,
a fragrância sem nome
da pele.

Tudo o que o desejo
unta nos meus lábios:
a doçura sonhada
de um contacto,
o sabido sabor
da saliva.

E tudo o que o sonho
torna palpável:
a boca de uma ferida,
a forma de uma entranha,
a febre de uma mão
que se atreve.

Tudo!
circula em cada ramo
da árvore das minhas veias,
acaricia as minhas coxas,
inunda os meus ouvidos,
vive nos meus olhos mortos,
morre nos meus lábios duros.