Há um conjunto de alfarrabistas que gosto de visitar — tenho a ideia de uma riqueza que possa ser encontrada numa muito intocada pilha ou estante. Aqui, nestes lugares, mana o mofo do palavreado fechado. Os ouvidos mais literários ouvem até o tempo gritar através do abafo da celulose. Tudo isto é calmo, disponibiliza alguma paz. Devagar passo pelas estantes com os olhos e com os dedos, procurando pelos nomes, pelos títulos, virando a cabeça para percebê-los, numa abertura arqueológica que me mostre a verdadeira vida no dentro daquelas capas morrediças. A sua estrita literatura. Os donos olham desinteressados, parecem habituados aos clientes que nada procuram para além de procurar. Encontro uma antiga Queda do Camus. Já o li em tempos, por meio de empréstimo, mas veio-me uma forte necessidade de o adicionar à minha própria estante, de lhe inscrever a perentoriedade do meu nome, e talvez de o reler um dia no encalço de uma esperança absurda. A compra de um livro não tem em vista necessariamente a sua leitura. Mas essencialmente de o adicionar à totalidade da minha obra — àquilo que me garante o possível de mim. É uma aritmética da individualidade. Mas também é um modo de me assegurar de que existo, de que fui, de que serei.