Nostalgia do futuro — saudade do que virá no seu não vir. Detenho-me contra a vidraça e há um piano redundante que toca redundante. Os edifícios estão erguidos e, nisso, vejo-os em vida. Como coisa que já é metamorfose do que será, por haver definitivamente futuro no que eles são e no que eu sou. Emociono-me na certeza de que tudo é passado em porvir, e que todo o tempo é tempo em devir. Contra a vidraça, contra o verão de lá fora sei cada verão que me aconteceu e, por isso, deste verão de lá fora sinto saudades de cada verão que poderá ser em qualquer tempo imaginado. O amarelo do mundo é mais amarelo por detrás da vidraça — a vidraça cobre-me do mundo e cobre-me de atenção para fora e para dentro. E se a vida se multiplica assim em mim, o que sou será em mim uma morte maior.
Fio condutor