Em alguma destas cidades aconteci? Em alguma parte de mim elas ainda acontecem? Passo os olhos pelo céu, pelos campos, pelos prédios, pelas estradas e estou certo, inteiramente certo, de que tudo é indefinição. Uma música no horizonte, apenas.

À cidade das Caldas pertence uma ambiguidade mas não uma indistinção. Em muito se assemelha às terras ribatejanas, que fizeram da mensuração da brutalidade animal e humana o seu estandarte. No meio desta violenta virilidade, as artes cerâmicas, aqui hasteadas num simultâneo fôlego parecem uma espécie de charme romântico inusitado. Quero dizer, certo é que as peças têm esta grossura de alma que as caracteriza. E é certo que nelas o psicadelismo grotesco surge em busca da fantasia caseira e fácil; a celebridade em busca da tradição; a arte em busca da utilidade. Mas é bom. Medianazinhamente bom, porque apesar de tudo é melhor que a disformidade do espírito exceda para a arte do que para os bichos. Bom que o homem transforme em cómico o sério de si e que não torne sério o que já é há muito. E que bom que seria se as cerâmicas proliferassem até que a praça de touros, a última daqui, se enchesse definitivamente de alfaces e falos pintados.