Já morei em quatro cidades deste país. Funchal, Porto, Lisboa, Caldas da Rainha. Por esta ordem, aproximadamente. E é estranho. Quero dizer, é estranha a relação que existe ou supomos existir entre nós e uma cidade que nos integra, a partir dela, no possível. É a vida. Ou biografia. Uma cidade aparece ou vai aparecendo na biografia, como um lento pousar do invisível. De modo inapelável, incorrigível, necessário. E numa delas, em qualquer uma delas, dar-se-á a nossa morte e, nela mesma, ou noutra, se a vida de outros que reste por fora da nossa assim o determinar, seremos sepultados. Como não permitir essa derradeira definição de quem somos? E sobre os nossos ossos alguns engenhosos levantarão uma casa, uma fábrica, uma bomba de gasolina. Do pó ao pó, assim parco, como se nada houvesse de entremeio. O exercício do espaço requer uma evasiva nitidez, que nem sempre se mostra aos olhos perdidos de fé. Não sei se ao homem cabe ainda a ininterrupta, diária insurreição do desejo. Não sei se um homem sabe o que o separa de si. Porém, um lugar abarca-o e consome-o, por vezes tão plenamente na ultrapassagem do encontro.
Fio condutor