O mesmo sempre. A mesma condição de nada contingenciar e nada inquirir. Queremos lembrar o eterno segundo espaço que resiste em nós, aquele que chegamos inusitadamente no fulgor do alheamento. O mesmo nada, o mesmo para sempre. Ali, no fundo defeso de quem és, no fundo oculto da tua vergonha. Que dizer quando só o silêncio pode dizer a falsidade das palavras que te transtornam os lábios? Morrer nem sempre, pois que é o homem senão a contingência de se ver sem reflexo no mundo?

Os autores têm para mim uma estrita fisicalidade. Quero dizer, ocupam um espaço na estante, um espaço preciso. As lombadas são precisas. As palavras são precisas. A relação entre eles é precisa. Penso-lhes defronte, na retaguarda, etc. Daí a importância para mim da biblioteca pessoal, oposta à certamente mais digna biblioteca universal, livre e pública. A ausência de um livro é a ausência de um autor. Uma biblioteca, portanto, por mais que se lhe adite, é sempre um espaço de ausência. Uma ausência precisa.

Sinto-me cada vez mais o outro que nunca serei.