<div class="translation-meta-card"> <p><strong>D. H. Lawrence</strong> · <em>Novo céu e nova terra</em></p> <p>De <em>Look! We Have Come Through!</em> (1917) · tradução de Luís Fausto</p> <p class="translation-source-note">Título original: <em>New Heaven and Earth</em>.</p> </div>

<section class="single-poem" lang="pt-PT"> <div class="poem-kicker">Tradução</div> <h2>Novo céu e nova terra</h2>

<div class="poem-part-number">I</div>

<p>E assim cruzo para outro mundo,<br> timidamente, e em preito espero por um convite<br> deste desconhecido que eu ousaria invadir.</p>

<p>Estou deveras contente, e só no mundo,<br> inteiramente só, e deveras contente, num novo mundo<br> onde por fim desembarquei.</p>

<p>Poderia chorar de alegria, porque estou no novo mundo,<br> em recém-aventura.<br> Poderia chorar de alegria, e com toda a liberdade, não há<br> ninguém para o saber.</p>

<p>E sejam quem forem os desconhecidos deste mundo desconhecido,<br> nunca compreenderão o meu choro de alegria<br> por me aventurar entre elas,<br> porque ainda será um gesto do velho mundo aquele<br> que faço,<br> e elas não o compreenderão, porque lhes é<br> inteiramente, inteiramente estranho.</p>

<div class="poem-part-number">II</div>

<p>Estava tão cansado do mundo,<br> estava tão farto dele,<br> tudo estava contaminado de mim,<br> céus, árvores, flores, pássaros, água,<br> pessoas, casas, ruas, veículos, máquinas,<br> nações, exércitos, guerra, discursos de paz,<br> trabalho, recreação, governo, anarquia,<br> tudo estava contaminado de mim, eu já tudo conhecia desde<br> o princípio,<br> porque tudo era eu.</p>

<p>Quando colhia flores, sabia que era eu mesmo<br> a colher o meu florescimento.<br> Quando viajava de comboio, sabia que era eu mesmo<br> a viajar na minha invenção.<br> Quando ouvia os canhões da guerra, escutava<br> com os meus próprios ouvidos a minha destruição.<br> Quando via os mortos dilacerados, sabia que eram o meu<br> corpo morto dilacerado.<br> Era tudo eu, eu fizera tudo na minha carne.</p>

<div class="poem-part-number">III</div>

<p>Nunca esquecerei o horror maníaco de tudo aquilo<br> no fim,<br> quando tudo era eu, eu já conhecia tudo, eu<br> antecipava tudo na minha alma,<br> porque eu era o autor e o resultado,<br> eu era ao mesmo tempo o Deus e a criação;<br> criador, olhava para a minha criação;<br> criado, olhava para mim mesmo, o criador:<br> era um horror maníaco no fim.</p>

<p>Eu era amante, beijava a mulher que amava,<br> e, Deus de horror, beijava-me a mim também.<br> Eu era pai e gerador de filhos,<br> e oh, oh horror, eu gerava e concebia<br> no meu próprio corpo.</p>

<div class="poem-part-number">IV</div>

<p>Por fim veio a morte, a suficiência da morte,<br> e isso por fim me aliviou, morri.<br> Enterrei a minha amada; foi bom, enterrei-me<br> e desapareci.<br> Veio a guerra, e todas as mãos se ergueram para matar;<br> muito bem, muito bem, todas as mãos erguidas para matar!<br> Muito bem, muito bem, sou um assassino!<br> É bom, posso matar e matar, e vê-los tombar<br> os jovens mutilados, tomados de horror, uma multidão<br> uns sobre os outros, e depois em grupos, juntos<br> esmagados, todos a escorrer sangue, e queimados em montes<br> subindo em fumo fétido para se verem livres deles<br> os corpos assassinados de jovens e homens em montes<br> e montes e montes e horrendos e pestilentos montes,<br> até ser quase suficiente, até eu ficar talvez reduzido;<br> milhares e milhares de mortos abertos, hediondos, imundos<br> que são jovens e homens e eu<br> queimados com óleo, consumidos em espesso<br> fumo corrupto, que rola,<br> contamina e enegrece o céu, até que por fim escurece<br> escurece-o escuro como a noite, ou a morte, ou o inferno,<br> e eu estou morto, e espezinhado até nada no<br> túmulo ensopado de fumo;<br> morto e espezinhado até nada na terra negra e agre<br> do túmulo; morto e espezinhado até nada, espezinhado<br> até nada.</p>

<div class="poem-part-number">V</div>

<p>Deus, como é bom ter morrido e ter sido espezinhado até não estar<br> espezinhado até nada na terra agre e morta,<br> inteiramente até nada,<br> absolutamente até nada,<br> nada,<br> nada,<br> nada.</p>

<p>Porque quando tudo é inteiramente, inteiramente nada, então é<br> tudo.<br> Quando sou inteiramente espezinhado até não estar, inteiramente, inteiramente não estar,<br> sem vestígio algum, então estou aqui,<br> erguido, pousando o pé noutro mundo,<br> erguido, consumando uma ressurreição,<br> erguido, não renascido, mas erguido, o corpo o mesmo,<br> novo além do conhecimento da novidade, vivo além<br> da vida,<br> orgulhoso além de qualquer indício ou mais remota concepção de<br> orgulho,<br> vivendo onde a vida nunca fora sonhada, nem<br> insinuada,<br> aqui, no outro mundo, ainda terrestre,<br> eu próprio, o mesmo de antes, e contudo impensavelmente novo.</p>

<div class="poem-part-number">VI</div>

<p>Eu, no túmulo negro e agre, espezinhado até ao absoluto,<br> toquei com a mão na noite, uma noite, e a minha<br> mão<br> tocou aquilo que em nada era eu,<br> em nada era eu.<br> Onde eu estivera houve um súbito clarão,<br> um súbito clarão inflamado!<br> Então estendi mais a mão, um pouco mais,<br> e senti aquilo que não era eu,<br> em nada era eu,<br> era o desconhecido.</p>

<p>Ah, eu era uma labareda a saltar para o alto!<br> Eu era um tigre irrompendo para a luz do sol.<br> Eu era ávido, estava louco pelo desconhecido.<br> Eu, recém-erguido, ressuscitado, esfaimado do túmulo,<br> esfaimado de uma vida em que me devorei a mim próprio,<br> agora aqui estava eu, recém-desperto, com a mão<br> estendida,<br> tocando o desconhecido, o verdadeiro desconhecido,<br> o desconhecido desconhecido.</p>

<p>Meu Deus, mas só posso dizer:<br> toco, sinto o desconhecido!<br> Sou o primeiro a chegar!<br> Cortés, Pizarro, Colombo, Cabot, não são<br> nada, nada!<br> Sou o primeiro a chegar!<br> Sou o descobridor!<br> Encontrei o outro mundo!</p>

<p>O desconhecido, o desconhecido!<br> Sou lançado à praia.<br> Cubro-me de areia.<br> Encho a boca de terra.<br> Enterro o corpo no solo.<br> O desconhecido, o novo mundo!</p>

<div class="poem-part-number">VII</div>

<p>Era o flanco da minha mulher<br> que toquei com a mão, que agarrei com a<br> mão,<br> erguendo-me, recém-desperto do túmulo!<br> Era o flanco da minha mulher,<br> com quem casei há anos,<br> a cujo lado me deitei por mais de mil<br> noites,<br> e durante todo esse tempo anterior, ela era eu, ela<br> era eu;<br> eu tocava-lhe, era eu quem tocava e eu quem era<br> tocado.</p>

<p>Contudo, erguendo-me do túmulo, do negro esquecimento,<br> estendendo a mão, a minha mão lançada como a<br> mão de um afogado sobre uma rocha,<br> toquei-lhe no flanco e soube que a corrente me levava, na morte,<br> até ao novo mundo, e que eu trepava para fora, até<br> à margem,<br> erguido, não para o velho mundo, o velho eu imutável,<br> a velha vida,<br> desperto não para o velho conhecimento,<br> mas para uma nova terra, um novo eu, um novo saber, um<br> novo mundo de tempo.</p>

<p>Ah não, não consigo dizer-te o que é, o novo mundo,<br> não consigo dizer-te o êxtase louco, atónito, da<br> sua descoberta.<br> Ficarei louco de prazer antes de o cumprir,<br> e quem quer que venha depois encontrar-me-á no<br> novo mundo,<br> um louco em êxtase.</p>

<div class="poem-part-number">VIII</div>

<p>Ribeiros verdes que correm do mais intrínseco continente<br> do novo mundo,<br> que são eles?<br> Verdes e iluminados e viajando para sempre,<br> dissolvidos no mistério do mais intrínseco coração<br> do continente,<br> mistério além do saber ou da resistência, tão<br> sumptuoso,<br> brotando das nascentes do novo mundo.<br> A outra, também ela tem estranhos olhos verdes!<br> Areias brancas e frutos desconhecidos e perfumes<br> que nunca<br> podem atravessar os mares negros até ao nosso mundo!<br> E terra que pulsa!<br> E vales que se achegam em amor!<br> E estranhos caminhos onde caio no esquecimento do viver extremo! —<br> Também ela, que é a outra, tem seios de estranhas elevações,<br> estranhos e abruptos declives e planuras<br> brancas.</p>

<p>Um esquecimento cego e forte, na vida absoluta, apodera-se<br> de mim!<br> A desconhecida, forte corrente da vida suprema<br> afoga-me e arrasta-me e mantém-me submerso<br> até às fontes do mistério, nas profundezas,<br> extingue ali a minha vida erguida, ressuscitada,<br> e reanima-a mais fundo, no âmago do absoluto mistério.</p> </section>