<div class="translation-meta-card"> <p><strong>Gabriel Miró</strong> · <em>O fumo adormecido</em></p> <p>De <em>El humo dormido</em> (1919) · tradução de Luís Fausto</p> <p class="translation-source-note">Texto de abertura.</p> </div>

<section class="translation-prose" lang="pt-PT"> <div class="poem-kicker">Tradução</div> <h2>O fumo adormecido</h2>

<p>Dos socalcos ceifados, das terras maduras, da quietude das distâncias, sobe um fumo azul que pára e adormece. Aparece uma árvore, o contorno de um solar; passa um caminho, um fresco resplendor de água viva. Tudo numa trémula nudez.</p>

<p>Assim se nos oferece a paisagem cansada ou cheia dos dias que nos ficaram para trás. Concretamente, não é o nosso passado; mas pertence-nos, e dele nos servimos para reviver e consentir episódios que rasgam o seu fumo adormecido. Há nesta lonjura um silêncio fundo que fica a escutar-nos. A abelha de uma palavra recordada vai abrindo-o e estremece tudo.</p>

<p>Não devem tomar-se estas páginas fragmentárias como um intento memorialístico; mas, ao lê-las, podem ouvir-se, de quando em quando, os sinos da cidade de Is, cuja lenda Renan evocou, a cidade mais ou menos povoada e áspera que todos levamos submersa dentro de nós.</p> </section>